terça-feira, 6 de abril de 2010

Oficina de Leitura 5 - Pepe

Pepe
11 de Agosto

Temos um cão em casa, vindo não se sabe donde. Apareceu assim, sem mais, como se andasse à procura de donos e finalmente os tivesse encontrado. Não tem maneira de vadio, é novinho e nota-se que foi bem ensinado lá onde viveu antes. Assomou à porta da cozinha quando almoçávamos, sem entrar, olhando apenas. Luís disse: “Está ali um cão” .Movia levemente a cabeça a um lado e a outro, como só sabem fazê-lo os cães: um verdadeiro tratado de sedução disfarçada de humildade. Não sou entendido em bichos caninos, sobretudo se pertencem a raças menos comuns, mas este tem todo o ar de ser cruzamento de cão-d’água e fox-terrier.
Se não aparecer por aí o legítimo dono (outra hipótese é que o animal tenha sido abandonado, como acontece tantas vezes neste tempo de férias) vamos ter de levá-lo ao veterinário para que o examine, vacine e classifique.
E há que dar-lhe um nome; já sugeri Pepe, que, como se sabe, é diminutivo espanhol de José… Amanhã será lavado e espulgado. Ladra baixinho, por enquanto, como quem não quer incomodar, mas parece ter ideias claras quanto às suas intenções; a minha casa é esta, daqui não saio.


José Saramago

In ‘’Cadernos de Lanzarote ,Diario 1 ’’

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Oficina de Leitura 4 - Sonho da Mae Negra

Sonho da Mãe Negra
Mãe negra
Embala o seu filho
E na sua cabeça negra
Coberta de cabelos negros
Ela guarda sonhos maravilhosos.

Mãe negra
Embala o seu filho
E esquece
Que o milho já a terra secou,
Que o amendoim ontem acabou.

Ela sonha mundos maravilhosos
Onde o seu filho irá à escola,
À escola onde estudam os homens.

Mãe negra
Embala o seu filho
E esquece
Os seus irmãos construindo vilas e cidades,
Cimentando-as com o seu sangue.

Ela sonha mundos maravilhosos
Onde o seu filho correria na estrada,
Na estrada onde passam os homens.

Mãe negra
Embala o seu filho
E, escutando
A voz de quem vem de longe
Trazida pelos ventos,

Ela sonha mundos maravilhosos
Mundos maravilhosos
Onde o seu filho poderá viver.


Marcelino dos Santos

In ‘’Canto do Amor Natural’’