SAUDADE PEDRA E ESPADA
Escrevo saudade com o mesmo vento
Com que escrevo a palavra liberdade.
Que numa e noutra sangra o pensamento
Lá onde a liberdade é uma saudade.
Saudade que já foi fraqueza
Em força e arma transformada
Minha festa por dentro da tristeza
Minha saudade feita pedra e espada.
Minha saudade que não és passada.
Mas este tempo nunca navegado
De transformar saudade em liberdade
Lá onde a liberdade é uma saudade.
Manuel Alegre
segunda-feira, 21 de junho de 2010
terça-feira, 8 de junho de 2010
Oficina de Leitura 10 - As Palavras
AS PALAVRAS
São como um cristal,
As palavras.
Algumas, um punhal,
Um incêndio.
Outras,
Orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
Brancos ou beijos,
As águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
Leves.
Tecidas são a noite.
E são a noite.
E mesmo pálidas
Verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem as recolhe, assim,
Cruéis, desfeitas,
Nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade
São como um cristal,
As palavras.
Algumas, um punhal,
Um incêndio.
Outras,
Orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
Brancos ou beijos,
As águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
Leves.
Tecidas são a noite.
E são a noite.
E mesmo pálidas
Verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem as recolhe, assim,
Cruéis, desfeitas,
Nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Oficina de Leitura 9 - A Ideia
A IDEIA
Força é pois ir buscar outro caminho!
Lançar o arco de outra nova ponte
Por onde a alma passe- e um alto monte
Aonde se abra à luz o nosso ninho.
Se nos negam aqui o pão e o vinho,
Avante! é largo, imenso esse horizonte…
Não, não se fecha o mundo! e além, defronte,
E em toda a parte há luz, vida e carinho!
Avante! os mortos ficarão sepultos…
Mas os vivos que sigam, sacudindo
Como o pó da estrada os velhos cultos!
Doce e branco era o seio de Jesus…
Que importa? Havemos de passar, seguindo,
Se além do seio dele houver mais luz!
Antero de Quental (1842-1891)
Força é pois ir buscar outro caminho!
Lançar o arco de outra nova ponte
Por onde a alma passe- e um alto monte
Aonde se abra à luz o nosso ninho.
Se nos negam aqui o pão e o vinho,
Avante! é largo, imenso esse horizonte…
Não, não se fecha o mundo! e além, defronte,
E em toda a parte há luz, vida e carinho!
Avante! os mortos ficarão sepultos…
Mas os vivos que sigam, sacudindo
Como o pó da estrada os velhos cultos!
Doce e branco era o seio de Jesus…
Que importa? Havemos de passar, seguindo,
Se além do seio dele houver mais luz!
Antero de Quental (1842-1891)
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