O avarento
Um homem muito rico, mas avarento, perdera a sua carteira cheia de dinheiro. Anunciou que daria cinco mil meticais a quem a encontrasse e lha entregasse. Dias depois, apareceu em casa do homem um camponês que lha entregou. Então, o avarento contou o dinheiro da carteira e disse:
- Muito obrigado. Pelo que vejo, já tirou os cinco mil meticais. Devia estar aqui vinte e cinco mil e só estão vinte mil.
O Camponês, que era honesto, ofendeu-se e jurou não ter tirado nem um metical da carteira. Como o avarento dizia não acreditar, o camponês exigiu que fosse apresentar a queixa ao juiz do tribunal da aldeia. Foram ter com o juiz.
Este viu logo que o avarento queria enganar o camponês e, por isso, disse:
-Um homem perdeu uma carteira com vinte e cinco mil meticais; um outro encontrou uma carteira com vinte mil. Assim, chegou a conclusão de que as carteiras não são as mesmas.
Depois, o juiz disse ao camponês:
-Leve a carteira que encontrou e guarde-a durante uns tempos ate ver se aparece alguém que tenha perdido só vinte mil. Se não aparecer ninguém, a carteira é sua.
E disse ao avarento:
-Ao senhor só quero dar-lhe um conselho: deve ter paciência e esperar até aparecer alguém que tenha encontrado uma carteira com vinte e cinco mil meticais.
Conto adaptado In ‘’Como é bom aprender 5ª Classe’’
terça-feira, 11 de maio de 2010
terça-feira, 6 de abril de 2010
Oficina de Leitura 5 - Pepe
Pepe
11 de Agosto
Temos um cão em casa, vindo não se sabe donde. Apareceu assim, sem mais, como se andasse à procura de donos e finalmente os tivesse encontrado. Não tem maneira de vadio, é novinho e nota-se que foi bem ensinado lá onde viveu antes. Assomou à porta da cozinha quando almoçávamos, sem entrar, olhando apenas. Luís disse: “Está ali um cão” .Movia levemente a cabeça a um lado e a outro, como só sabem fazê-lo os cães: um verdadeiro tratado de sedução disfarçada de humildade. Não sou entendido em bichos caninos, sobretudo se pertencem a raças menos comuns, mas este tem todo o ar de ser cruzamento de cão-d’água e fox-terrier.
Se não aparecer por aí o legítimo dono (outra hipótese é que o animal tenha sido abandonado, como acontece tantas vezes neste tempo de férias) vamos ter de levá-lo ao veterinário para que o examine, vacine e classifique.
E há que dar-lhe um nome; já sugeri Pepe, que, como se sabe, é diminutivo espanhol de José… Amanhã será lavado e espulgado. Ladra baixinho, por enquanto, como quem não quer incomodar, mas parece ter ideias claras quanto às suas intenções; a minha casa é esta, daqui não saio.
José Saramago
In ‘’Cadernos de Lanzarote ,Diario 1 ’’
11 de Agosto
Temos um cão em casa, vindo não se sabe donde. Apareceu assim, sem mais, como se andasse à procura de donos e finalmente os tivesse encontrado. Não tem maneira de vadio, é novinho e nota-se que foi bem ensinado lá onde viveu antes. Assomou à porta da cozinha quando almoçávamos, sem entrar, olhando apenas. Luís disse: “Está ali um cão” .Movia levemente a cabeça a um lado e a outro, como só sabem fazê-lo os cães: um verdadeiro tratado de sedução disfarçada de humildade. Não sou entendido em bichos caninos, sobretudo se pertencem a raças menos comuns, mas este tem todo o ar de ser cruzamento de cão-d’água e fox-terrier.
Se não aparecer por aí o legítimo dono (outra hipótese é que o animal tenha sido abandonado, como acontece tantas vezes neste tempo de férias) vamos ter de levá-lo ao veterinário para que o examine, vacine e classifique.
E há que dar-lhe um nome; já sugeri Pepe, que, como se sabe, é diminutivo espanhol de José… Amanhã será lavado e espulgado. Ladra baixinho, por enquanto, como quem não quer incomodar, mas parece ter ideias claras quanto às suas intenções; a minha casa é esta, daqui não saio.
José Saramago
In ‘’Cadernos de Lanzarote ,Diario 1 ’’
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Oficina de Leitura 4 - Sonho da Mae Negra
Sonho da Mãe Negra
Mãe negra
Embala o seu filho
E na sua cabeça negra
Coberta de cabelos negros
Ela guarda sonhos maravilhosos.
Mãe negra
Embala o seu filho
E esquece
Que o milho já a terra secou,
Que o amendoim ontem acabou.
Ela sonha mundos maravilhosos
Onde o seu filho irá à escola,
À escola onde estudam os homens.
Mãe negra
Embala o seu filho
E esquece
Os seus irmãos construindo vilas e cidades,
Cimentando-as com o seu sangue.
Ela sonha mundos maravilhosos
Onde o seu filho correria na estrada,
Na estrada onde passam os homens.
Mãe negra
Embala o seu filho
E, escutando
A voz de quem vem de longe
Trazida pelos ventos,
Ela sonha mundos maravilhosos
Mundos maravilhosos
Onde o seu filho poderá viver.
Marcelino dos Santos
In ‘’Canto do Amor Natural’’
Mãe negra
Embala o seu filho
E na sua cabeça negra
Coberta de cabelos negros
Ela guarda sonhos maravilhosos.
Mãe negra
Embala o seu filho
E esquece
Que o milho já a terra secou,
Que o amendoim ontem acabou.
Ela sonha mundos maravilhosos
Onde o seu filho irá à escola,
À escola onde estudam os homens.
Mãe negra
Embala o seu filho
E esquece
Os seus irmãos construindo vilas e cidades,
Cimentando-as com o seu sangue.
Ela sonha mundos maravilhosos
Onde o seu filho correria na estrada,
Na estrada onde passam os homens.
Mãe negra
Embala o seu filho
E, escutando
A voz de quem vem de longe
Trazida pelos ventos,
Ela sonha mundos maravilhosos
Mundos maravilhosos
Onde o seu filho poderá viver.
Marcelino dos Santos
In ‘’Canto do Amor Natural’’
terça-feira, 16 de março de 2010
Oficina de Leitura 3 - As Capulanas Falam
30/03/2010
‘’As Capulanas Falam’’
-Bom dia, “Deixa falar”. Conta-me a razão do teu nome! - disse a capulana “Xivite xa Valoi”,do fundo de um baú.
De cor de rosa carregado e barras brancas, “Deixa falar” respondeu:
-Não sei dizer…Já esqueci…Já tenho muitos anos.
“Xivite xa Valoi”, de cor bastante escura, parece um repórter a entrevistar para um jornal e pergunta a outra sua vizinha:
-“Xirombana”que idade tens? O teu fundo azul e o conjunto dos teus desenhos fazem-te uma das mais lindas capulanas.
-Tenho mais de 30 anos. Fui feita e vendida nos anos 50. E tu, por que é que te chamas “Rancor de Feiticeiros”?
-Por minha vida! Não devias perguntar-me tal coisa! Mas aí vai: As mulheres jovens não gostaram de mim e rejeitaram-me. Por isso chamaram-me assim.
Mas a conversa generalizou-se. E, do fundo escuro da arca, sobem outras vozes:
-Eu sou a “Beira-mar”, em honra deste clube. Nasci aquando da inauguração do seu campo de futebol.
-E a mim, chamam-me “Pataria”, em honra do recomeço do funcionamento das padarias em Angoche, em 1960.
-Filhas - concluiu a capulana mais antiga- nós somos uma bela recordação para a nossa dona. Vamos cantar para ela:
Seremos uma herança
Ou prenda de casamento?
P’ra quem nos guardas senhora,
Com carinho e sentimento?
Anónimo Moçambicano
In ‘’Como é bom Aprender, Português 5ª Classe’’
‘’As Capulanas Falam’’
-Bom dia, “Deixa falar”. Conta-me a razão do teu nome! - disse a capulana “Xivite xa Valoi”,do fundo de um baú.
De cor de rosa carregado e barras brancas, “Deixa falar” respondeu:
-Não sei dizer…Já esqueci…Já tenho muitos anos.
“Xivite xa Valoi”, de cor bastante escura, parece um repórter a entrevistar para um jornal e pergunta a outra sua vizinha:
-“Xirombana”que idade tens? O teu fundo azul e o conjunto dos teus desenhos fazem-te uma das mais lindas capulanas.
-Tenho mais de 30 anos. Fui feita e vendida nos anos 50. E tu, por que é que te chamas “Rancor de Feiticeiros”?
-Por minha vida! Não devias perguntar-me tal coisa! Mas aí vai: As mulheres jovens não gostaram de mim e rejeitaram-me. Por isso chamaram-me assim.
Mas a conversa generalizou-se. E, do fundo escuro da arca, sobem outras vozes:
-Eu sou a “Beira-mar”, em honra deste clube. Nasci aquando da inauguração do seu campo de futebol.
-E a mim, chamam-me “Pataria”, em honra do recomeço do funcionamento das padarias em Angoche, em 1960.
-Filhas - concluiu a capulana mais antiga- nós somos uma bela recordação para a nossa dona. Vamos cantar para ela:
Seremos uma herança
Ou prenda de casamento?
P’ra quem nos guardas senhora,
Com carinho e sentimento?
Anónimo Moçambicano
In ‘’Como é bom Aprender, Português 5ª Classe’’
terça-feira, 9 de março de 2010
Oficina de Leitura 2 - A Minha Mae
A Minha Mãe
Mulher Negra, mulher africana,
Ó tu, minha mãe, penso em ti…
*
Ó Dâman, ó minha mãe, tu que
me trouxestes às costas, tu que me
deste de mamar, tu que guiaste os
meus primeiros passos, tu que foste
a primeira a abrir-me os olhos para
os grandes prodígios da Terra,
penso em ti…
*
Mulher dos campos, mulher dos
rios, mulher do grande rio, ó tu,
Minha mãe, penso em ti…
*
Ó tu, Dâman, ó minha mãe, tu
Que enxugavas as minhas lágrimas,
Tu me reconfortavas o coração,
Tu que, pacientemente, suportavas
Todos os meus caprichos, como eu
Gostaria de estar ainda junto de ti,
De ser criança ao pé de ti!
*
Mulher simples, mulher da re-
signação, ó tu, minha mãe, penso
em ti…
*
Ó Dâman, Dâman da grande fa-
mília dos ferreiros, o meu pensa-
mento volta-se continuamente para
ti, e o teu acompanha-me a cada
passo, ó Dâman, minha mãe, como
gostaria de estar ainda envolto no
teu calor, de ser criança ao pé
de ti…
*
Mulher negra, mulher africana,
Ó tu, minha mãe, obrigado; obri-
gado por tudo aquilo que fizeste
por mim, pelo teu filho, tão longe,
tão perto de ti!
Mulher Negra, mulher africana,
Ó tu, minha mãe, penso em ti…
*
Ó Dâman, ó minha mãe, tu que
me trouxestes às costas, tu que me
deste de mamar, tu que guiaste os
meus primeiros passos, tu que foste
a primeira a abrir-me os olhos para
os grandes prodígios da Terra,
penso em ti…
*
Mulher dos campos, mulher dos
rios, mulher do grande rio, ó tu,
Minha mãe, penso em ti…
*
Ó tu, Dâman, ó minha mãe, tu
Que enxugavas as minhas lágrimas,
Tu me reconfortavas o coração,
Tu que, pacientemente, suportavas
Todos os meus caprichos, como eu
Gostaria de estar ainda junto de ti,
De ser criança ao pé de ti!
*
Mulher simples, mulher da re-
signação, ó tu, minha mãe, penso
em ti…
*
Ó Dâman, Dâman da grande fa-
mília dos ferreiros, o meu pensa-
mento volta-se continuamente para
ti, e o teu acompanha-me a cada
passo, ó Dâman, minha mãe, como
gostaria de estar ainda envolto no
teu calor, de ser criança ao pé
de ti…
*
Mulher negra, mulher africana,
Ó tu, minha mãe, obrigado; obri-
gado por tudo aquilo que fizeste
por mim, pelo teu filho, tão longe,
tão perto de ti!
terça-feira, 2 de março de 2010
Oficina de Leitura 1 - O Mar do Norte
2 de Março 2010
O mar do Norte, verde e cinzento, rodeava Vig, a ilha, e as espumas varriam os rochedos escuros. Havia nesse começo da tarde um vaivém incessante de aves marítimas, as águas engrossavam devagar, as nuvens empurradas pelo vento sul acorriam e Hans viu que se estava formando a tempestade. Mas ele não temia a tempestade e, com a roupa inchada de vento, caminhou até ao extremo do promontório. O voo das gaivotas era cada vez mais inquieto e apertado, o ímpeto e o tumulto cada vez mais violentos e os longínquos espaços escureciam. A tempestade, como uma boa orquestra, afinava os seus instrumentos.
Hans concentrava o seu espírito para a exaltação crescente do grande cântico marítimo. Tudo nele estava atento como quem escutava um cântico numa igreja austera, solene, apaixonada e fria.
Adaptado de “Saga” por Sophia de Mello Breyner Andresen
O mar do Norte, verde e cinzento, rodeava Vig, a ilha, e as espumas varriam os rochedos escuros. Havia nesse começo da tarde um vaivém incessante de aves marítimas, as águas engrossavam devagar, as nuvens empurradas pelo vento sul acorriam e Hans viu que se estava formando a tempestade. Mas ele não temia a tempestade e, com a roupa inchada de vento, caminhou até ao extremo do promontório. O voo das gaivotas era cada vez mais inquieto e apertado, o ímpeto e o tumulto cada vez mais violentos e os longínquos espaços escureciam. A tempestade, como uma boa orquestra, afinava os seus instrumentos.
Hans concentrava o seu espírito para a exaltação crescente do grande cântico marítimo. Tudo nele estava atento como quem escutava um cântico numa igreja austera, solene, apaixonada e fria.
Adaptado de “Saga” por Sophia de Mello Breyner Andresen
Subscrever:
Mensagens (Atom)